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João Paulo Félix Atleta

João Paulo Félix Atleta

11
Dez18

Orlando Duarte - O meu ilustre Convidado de Honra (Parte I)

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Combinámos encontrarmo-nos no Parque dos Índios em Monsanto. À hora combinada lá estávamos junto à entrada principal. Estava um dia maravilhoso com um sol muito bonito, com uma luz fantástica, aquela luz que parece que só Lisboa é que tem. Começamos a falar e comecei por perguntar…

Blog – O 1º Corta Mato foi aqui?

OD – Exactamente, não tenho a certeza se em 1988, ou 89, eu colaborava com o vogal do Desporto da Junta de Freguesia de Campolide que, curiosamente, era uma pessoa que não era aqui da Freguesia. Morava na Buraca mas veio para aqui através do PCP e eu conheci-o aqui em baixo num outro evento, noutra iniciativa, em que eu vi-o ali um bocado sozinho e desamparado e eu ofereci-me para o ajudar.

Blog – Começaste a apoiar?

OD – Comecei e era o Assessor dele. Depois em 88, curiosamente, nasce de uma situação engraçada. O Executivo da Junta de Freguesia era AD (Aliança Democrática) mas a Presidente que era PSD em 88, portanto, ou seja, no 2º ano do Mandato fez uma “limpeza”, fez uma reforma no Executivo mandou embora os que os outros 6 (3 do PSD e 2 do CDS) e convidou a oposição, o PS e a CDU.

Blog – Uma “coisa” nada comum…

OD – Nada mesmo, o Executivo era na maioria PS e a Presidente era PSD, eram 3 PS´s e dois CDU´s.

Blog – Isso era uma “Equipa e Pêras”, era uma Equipa de trabalho, nessa lógica…

OD – Sim, funcionou muito bem. Então esse vogal do Desporto era da CDU que eu não sabia eu conheci-o ali no Evento que ele organizou aqui em baixo. Eu tinha os putos isto era em 88 a minha miúda tinha 4 anos o outro tinha 9 era assim um evento lúdico e infantil e fui lá ver mas depois o homem tinha mais duas ou três pessoas e era muita criançada. Eu vou ajudá-lo!

Blog – E começou assim essa relação?

OD – E foi assim, eu não sabia quem era o homem. Aliás, como digo ele não nasceu aqui, não sabia quem era o homem, qual era o partido dele quais as ideias. Sabia era que era necessário, a ideia era boa e foi uma amizade que só parou com a morte dele. Morreu com sessenta e poucos anos. Ficámos amigos, bastante amigos, era uma pessoa excelente.

Blog – Uma relação bastante enriquecedora…

OD – Exacto, a partir de 1988 fizemos os Jogos Desportivos da Freguesia.

Blog – Tudo na Freguesia de Campolide?

OD – Tudo aqui na Freguesia de Campolide. Metemos os putos a jogar à bola, a jogar andebol, a jogar várias modalidades e atletismo.

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Blog – Ias organizando e participavas como Atleta?

OD – Nas Provas organizadas pela Junta, não. Até que surgiu a ideia de se fazer um Corta Mato aqui, onde hoje é este Parque dos Índios, e para isso andei aqui a cortar mato com uma machada…

Blog – Corta Mato no verdadeiro sentido da palavra. Notas diferença entre esses tempos em que havia alguma carolice e os dias de hoje com Provas organizadas, quase profissionais. Por exemplo, quando as Juntas de Freguesia juntam-se a Associações Profissionalizadas. Achas que há alguma mudança?

OD – Pois mudou, porque essa carolice como tu dizes foi desaparecendo os “voluntários hoje é à força”.

Blog – E as inscrições como é que funcionavam? Suponho que eram grátis?

OD – Exactamente!

Blog – É curioso que aqui na área da grande Lisboa temos poucas Entidades poucas Autarquias a organizar Provas de Atletismo para todos. Estou a lembrar-me do caso da Moita, Sintra, Cascais e Oeiras e assim de repente...

OD – Há poucas mas isso… Eu defendi quando começaram a aparecer as primeiras Provas pagas no final da década de 70, em 79, 80, começaram a aparecer as primeiras Provas pagas ainda lutei contra isso porque por princípio…

Blog – Defendes o Desporto para todos?

OD – É esse o espírito! Até porque nas Corridas há essa situação bonita porque à partida somos todos iguais, não há estrato social, mas agora se virmos a coisa a montante há porque se a prova custa 20€ de Inscrição, há alguns desempregados, alguns ordenados mínimos que não têm acesso, têm mas é a muito custo, há essa diferença. Acontece que as Inscrições gratuitas, e eu tive que dar o braço a torcer, porque efectivamente nós, a nossa cultura, somos o que somos e o que se revelou é que não havia respeito, lá está, pelos carolas que “roubavam” horas à sua família e ao seu lazer em prol da Comunidade e essa mesma Comunidade depois não correspondia com respeito. Ou seja, o que é que acontecia? As Inscrições como eram gratuitas aquilo eram folhas A4 era “chapa 5”.

Blog – Depois aparecer era mais complicado?

OD – Depois tínhamos 500 inscritos e apareciam 300.

Blog – Com toda a logística preparada, com águas, com prémios?

OD – Com tudo o que isso acarreta. Isso era tudo feito à mão e eu passava serões a fazer dorsais. O dorsal era um papel, um cartãozinho quadriculado e depois ponhamos o número lá, isto era feito, tudo à mão, isto era feito 500 vezes, depois tinha que fazer um furinho. Provas maiores fazíamos o controlo de passagem, tinha uma “coleira”, chamo-lhe “coleira”…

Blog - Um fiozito…

OD - Um fio de nylon e isso tinha que ser feito também, cortar e atar, cortar e atar.

Blog – Estou a lembrar-me que só na Prova da Festa do Avante é que esse fio se usa. É a única que me lembro de momento…

OD – É, e falas numa Prova que caracteriza muito bem a maldade que se faz às Organizações. A Corrida do Avante tem sempre mais de 2000 inscritos e passa ali os 1000 classificados. É uma Prova a rondar os 1100, 1200 classificados e tem sempre 2000 inscritos...

Blog - Lá está porque é gratuita. Na outra vez li uma mensagem que não percebi muito bem. Vais ajudar-me a interpretá-la mas acho que havia 20%, Inscrições pagas, Atletas que fazem a Inscrição e que depois não vão, mais ou menos, não sei da precisão deste número…

OD – Com as Inscrições gratuitas era 60% participantes andava ali nos 55 a 60%. Com as pagas passa sempre dos 90% de participantes.

Blog – Uma taxa de 10% de pessoas que não vão, eventualmente, por vários motivos?

OD – Acontece, já me aconteceu estar inscrito e por motivos profissionais, familiares, ou de saúde...

Blog – Nesse papel de Organizador tiveste muito tempo a organizar Provas em diferentes áreas e em diferentes sítos?

OD – Nesses 2 anos, em 88 e 89, colaborei com o Vogal da Junta e organizamos várias modalidades. Depois em 90, já noutro Mandato, no Mandato seguinte é quando se dá a Coligação “Por Lisboa” foi uma das melhores coisas que aconteceu em Lisboa. Eu penso que é o que poderia acontecer ao país e quando se fez a Coligação “Por Lisboa” em que o PS se entendeu com o PC e foram de 90 a 2005. Foram 15 anos muito bons em que esta coligação funcionou muito bem…

Blog – Continuavas também a competir?

OD – Continuei a colaborar mas esse Executivo entendeu que devia fazer as coisas com mais profissionalismo e não com a minha carolice. Foi contratado um profissional de Educação Física, um Professor de Educação Física, como se chamava na altura, e estava com um plano de trabalhos. Ele elaborou um plano de trabalhos e eu ajudava, pontualmente, essa pessoa. Esse professor teve um ano e tal era o - Pedro Conde - e depois teve que sair. Depois veio outro e esse outro é que esteve práí uns dez anos e então já em 90 nasce a “1ª Dupla Légua de Campolide” . Estive como Coordenador da Equipa mas esta Prova era sempre apoiada por uma Colectividade que tinha atletismo e eu coordenava a Equipa. Tive como Coordenador da “Dupla Légua de Campolide”, 8 anos e depois ainda se fez 3 ou 4 anos e depois acabou.

Blog – Como é que vês este crescimento, se é que podemos falar de um crescimento, de pessoas a correr, pessoas a fazer exercício, sobretudo na Corrida. Como é que vês este crescimento?

OD _ É assim, quando eu comecei a correr em 1975...

Blog – A corrida, as Provas organizadas, eram quase uma actividade proibida?

OD – Antes de 1974 Provas de Estrada havia 3 ou 4, aquelas Clássicas que, felizmente, ainda hoje existem que é o: Grande Prémio Natal, a Volta a Paranhos no Porto, no Funchal. As Provas de Estrada que havia eram essas e não eram disputadas por populares eram disputadas por Atletas Federados. Eram Atletas que praticavam atletismo na pista e depois faziam aquelas 3 ou 4 provas de Estrada. Portanto, com o 25 de Abril nasceu esse movimento do Desporto para Todos e das provas á Porta de Casa.

Blog – Mas não era nada como é hoje?

OD- Não, eu quando começo em 75 já havia algumas Provas mas muito localizadas em Lisboa e depois isto começou-se a expandir, mas havia muito poucas provas, por exemplo, em Agosto não havia Provas. A época ia de Setembro, Outubro, a Junho.

Blog – Contudo, ainda ontem li uma mensagem tua que apesar de haver mais Atletas em termos competitivos baixou a qualidade, os resultados…

OD – Sim, eu ia a dizer em 75 a maior parte das Corridas chamava-se “Grandes Prémios”, não sei se por influência do “Grande Prémio de Natal”, provavelmente. Era uma “Clássica” e muito assistida. Era engraçada, a Avenida da Liberdade ficava cheia porque havia muito essa rivalidade, o “Grande Prémio de Natal”, não era mais do que uma Prova entre o Sporting e o Benfica. Os 30 primeiros, eram 15 do Sporting e 15 do Benfica desde os melhores e depois por aí abaixo, inclusive até juniores. Naquele dia a secção do Sporting e do Benfica juntava-se. A Avenida da Liberdade ficava cheia de gente. Lá nesse aspecto a coisa inverteu-se. É curioso que hoje temos mais gente a correr e menos a assistir e antigamente era mais a assistir e menos a correr. E então essa prova era uma “Prova clássica”, um “Grande Prémio”, e se calhar as Provas a seguir que foram aparecendo era o “Grande prémio de Alvalade”, o “Grande Prémio de Carnaxide”, o “Grande Prémio” dali, o “Grande Prémio” dacolá. Qual é a diferença e qual é a vantagem, e isso se calhar hoje está a reflectir-se… Qual a vantagem desses “Grandes Prémios”? Porque eram Provas por escalões. Hoje tu vais a uma Prova e é tudo adulto, não há jovens a correr, não há miúdos, não há miudagem, e naquela altura não. Havia os benjamins…

Blog – Havia para todos os Escalões?

OD – Havia os benjamins de 9, 10 anos, depois os infantis, depois os iniciados, juvenis, juniores, toda a gente participava e havia percursos próprios que correspondia à idade e isso foi crescendo tanto que em 75 os veteranos era ao contrário de agora. Houve uma altura que no pelotão 80/85% eram veteranos. Agora o Pelotão já está a ser refrescado e já estão, sei lá, 70% são veteranos. Naquela altura, 80% eram jovens e 20% eram veteranos porque os Atletas Federados quando chegavam a veteranos retiravam-se. Não havia Provas para eles.

Blog – Agora vês pessoas a correr com diferentes idades. Isso tem um lado que é entusiasmante?

OD – Pois, em 75, 76, jamais tu vias um homem de 70 anos a correr, era uma raridade. Portanto, esses “Grandes Prémios” tinham essa mais-valias que era as crianças e isso depois vai-se reflectir…

Blog – É um bocado a preparação para o futuro?

OD – Essa bola de neve foi crescendo e aumentando até aos dias de hoje. Só que foi aumentando em quantidade e foi diminuindo em qualidade. Nós fomos uma potência no meio fundo, fundo, a nível mundial e hoje não temos. É uma tristeza no Campeonato do Mundo não temos finalistas nos 10 000mt.

Blog – É curioso quando os Atletas hoje têm mais condições que toda essa geração na altura tinha…

OD – Em 75, se a memória não me atraiçoa, havia uma pista de tartan que era do Benfica que era num campo ao lado do Estádio da Luz, um campo de râguebi, curiosamente e tinha uma Pista.

Blog – Não é só as condições em termos de Pista - estou a pensar nos Fisiologistas, estou a pensar num Personal Trainner, estou a pensar nos Equipamentos, hoje tudo é muito diferente e é curioso que os Atletas hoje têm menos prestações.

OD – Eu acho que hoje já sobra Equipamentos Desportivos para a procura.

Blog – Também tenho essa ideia…

OD – Porque hoje não há um Concelho que não tenha uma Pista de tartan e temos aí centenas de Pistas de tartan e não há procura.

Blog – Voltando à questão da competitividade – o que é que pode estar na origem de Atletas menos competitivos quando têm mais condições?

OD – Eu penso – não tem nada de Cientifico – é uma mera opinião, eu acho que tem a ver com a mentalidade. Eu quando era miúdo, desde a minha tenra idade, estava habituado às dificuldades, aos sacrifícios, tinha que lutar por aquilo, ter espírito de sacrifico e garra. Hoje as crianças estalam o dedo e têm tudo...

Blog – Tem que ver com o facilitismo que acaba de espelhar também na área do desporto?

OD – Sobretudo, nestas Modalidades individuais. No colectivo estas coisas esbatem-se mais, estão mais interligados, uns puxam pelos outros. Estas Modalidades individuais em que o querer, o espírito de sacrifício, é indispensável. Aqueles grandes Atletas que tivemos levantavam-se cedinho e iam treinar e sempre a dar mais. Nós tínhamos um .…

Blog – E alguns trabalhavam…

OD – Não eram alguns, eram todos. Em 74, 75, eram todos puramente Amadores. Depois de 75 em que o Moniz Pereira fez o apelo ao Governo da altura para dar condições aos Atletas é que começaram a ter uma parte do dia. Ou trabalhavam de manhã ou trabalhavam de tarde e depois o Atletismo a outra metade e os resultados começaram a aparecer, mas foi graças ao Mestre - o Moniz Pereira.

Blog – Uma figura central no Atletismo?

OD – Ele em Alvalade tinha uma frase engraçada, quem trabalhou com ele não se esquece, que era “nem que chova picaretas há treino”, e o que é facto é que 9 da manhã chovia torrencialmente e o Moniz Pereira estava no centro do campo com o impermeável à espera. Relatos contados pelos Atletas da altura. Eles subiam o túnel de acesso ao estádio na esperança, o Prof hoje não está cá, a chover desta maneira.

Blog – É preciso liderança, há uma falta muito grande de liderança não só no Atletismo mas se calhar noutras áreas das nossas vidas…

OD – Exacto, exacto!

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Blog – O Orlando Duarte é uma pessoa multifacetada tem esta experiência de Organizador, é atleta. Neste momento, estás com quantas Provas? Registas as Provas todas?

OD – Recordo que comecei em 1975, mas só comecei a registar em 1985. Daí para cá são  680.

Blog – 680 Provas! Isso dá quantos Quilómetros? É uma provocação (risos)…

OD – Tenho 8839 quilómetros de Competição, com treinos ando perto dos 100 000 quilómetros.

Blog – Espectáculo!

OD – Dessas 680 Provas tenho uma maratona e 140 com 20 ou mais quilómetros, sendo que dessas 140 tenho 58 Meias Maratonas. Nas 680 provas gastei 754h57m38s e recebi 545 camisolas!

Blog – Alias a tua corrida por Causas nomeadamente pela SPEM (Sociedade Portuguesa Esclerose Múltipla) que tem muito que ver com este teu lado solidário, de ligação aos outros, este teu lado humano. Porquê a SPEM e o que é que significa correr por uma causa?

OD – Olha, como é que eu chego à SPEM? Eu corri muito por Clubes, eu representei 3 Clubes aqui na Freguesia onde moro e um Clube, curiosamente, de Ovar durante 2 anos por amizade. Desse de Ovar saí porque os meus amigos saíram do Clube e não fazia sentido estar no Clube, estava lá por eles, não saí contra o Clube, não tenho nada contra o Clube, o Clube é o Afis de Ovar; Atletas Fim de Semana.

Aqui na Freguesia representei 3 e de facto saí sempre algo magoado porque os outros sócios dessas Colectividades, que não eram adeptos da Corrida, manifestaram sempre algum mau sentimento… no fundo era inveja, porque nós tínhamos apoios do Clube e como todas as semanas havia uma Prova e  tínhamos deslocações então eles estavam sempre com bocas: “lá vão ou vêm os excursionistas”, nós éramos apelidados de excursionistas, eu aparecia com uns ténis novos e ficavam logo a pensar que tinham sido dados pelo clube, e não era verdade, só 1 dos 3 clubes é que me deu Equipamento, os outros não. Então, havia essas coisas e eu desisti dos clubes…

E decidi: não represento mais Clube nenhum! Depois andei práí uma década a correr individual e um dia numa Prova eu vi umas 4 ou 5 “camisolas Mágica” da SPEM da Esclerose múltipla e um deles era meu amigo abordei-o: olha o que é que se passa aí? O que é isso? E ele fez o que eu já fiz com muitos esclareceu-me o que era a doença, qual era o objectivo, qual era a causa. Disse-lhe, está eleita a minha Equipa! É esta porque eles não se opõem a nada, eu vou correr aonde eu quero, quando eu quero.

Blog – E é uma excelente forma de apoiar a Causa. E tens contabilizado o numero de quilómetros que já correste pela SPEM. São quantos?

OD – Tenho perto de 2000 km nestes 4 anos. Aliás eu tinha como objectivo, nestes 4 anos, que atingia no dia 6 de Setembro, que foi quando comecei a correr com a “mágica”, alcançar as 100 Provas, mas fiquei em 95 e os 2000 km e tenho 1743 km. Não atingi os objectivos porque entretanto lesionei-me em finais de Junho.

Blog – Vais superar e vais voltar…

OD- Sim, tenho duas camisolas novas. Já lá vão 4 camisolas que se vão gastando e agora, precisamente, em Junho em princípios de Junho, adquiri mais duas, porque é também esta a forma de ajudar a Sociedade. Eu corro com a camisola mas tenho que a comprar, não é comprar, é um donativo. O que é que acontece? É diferente, eu sinto a camisola e muitas vezes especialmente nos trails onde andamos mais tempo, muitas vezes eu desanimava e, muitas vezes, reparava na camisola e pensava: há quem esteja pior do que eu e eu estou muito bem vamos continuar!

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Blog – A tua camisola é a especial das especiais porque além de correres pela SPEM tens impresso a fotografia da Analice dá um duplo significado. A Analice eram amigos…

OD – A Analice também correu algumas Provas com a “mágica”.

Blog – Eu lembro-me de uma que até tenho uma fotografia convosco na “Prova do Montepio”.

OD – Exactamente, uma Prova solidária em que…

Blog – A Analice é uma pessoa muito importante para ti e para a tua família vocês tinham uma amizade muito bonita, eram uma família. Partilhaste muitas Provas e muitas vivências com a Analice…

OD – A Analice, eu conheci-a há 30 anos, em 87, ela veio para Portugal em 86, e eu conheci a Analice por acaso através da Revista da Spiridon. Quando eu estou a ver as classificações da 1ª Edição das “12h de Vila Real de Santo António”, à época uma Prova de 12h era uma Prova astronómica e mais astronómico ficou, para mim, quando vejo que o 6º classificado é uma senhora, de nome Analice Silva, do Brasil, com mais de 100 km, salvo o erro 106 km. Aquilo para mim… eu tenho que conhecer esta senhora isto de facto é inédito. E assim foi. Todas as Provas que eu ia estava atento até que um dia cruzei-me com ela cumprimentei-a passei a conhecê-la. Não fui logo amigo dela.

Blog – É preciso um tempo para construir a amizade, vai-se construindo…

OD- A partir dali andei alguns anos a cruzar-me com ela nas Provas sempre … sempre com amizade e respeito, aliás, que era a característica dela. Ela cumprimentava toda a gente.

Blog – Sim, era muito simpática, muito afável, muito disponível…

OD – E é preciso ver que a Analice nesses anos era uma Atleta de grande qualidade ganhou Provas longas, especialmente provas longas que era a “praia” dela. Há registos de Provas que ela venceu e, portanto, podia ser uma pessoa pedante, mas não. Até que as voltas que a vida dá e a Analice teve muita volta, a vida da Analice dava um filme, deu muita volta até que um dia ela cruza-se com um amigo meu aqui do bairro que a convida para vir correr para o Liberdade Atlético Clube.

Blog- Foram colegas de Equipa?

OD – Não fomos colegas eu nunca corri… aliás, eu fiz uma Prova pelo Liberdade uma vez para ajudar a Equipa na pontuação. Na altura fazia-se muito isto, aquilo era por pontos era mais um. Eu dos 3 Clubes que corri aqui da Freguesia não foi o Liberdade A. C. mas esse Liberdade até é o Clube mais perto da minha casa e essa pessoa que a trouxe era o Presidente, o Manuel, que tratávamos pelo Nelo e que depois foi das pessoas mais importantes da vida da Analice. O Nelo foi durante uns 7 anos ou 8, quase que foi o pai dela. Ajudou-a em todos os sentidos quer a nível desportivo era como um agente desportivo dela, quer a nível de apoios monetários. A Analice tinha muitas dificuldades económicas era uma pessoa sozinha e então é aí… isto é nos finais dos anos 90, 99 praí, a partir daí é que eu comecei a ser amigo pessoal da Analice. Depois essa amizade foi crescendo, foi crescendo, e nos últimos 4, 5 anos da vida dela essa amizade passou a ser quase familiar. Ela começou a frequentar a minha casa eu é que depois passei a tratar das Inscrições dela embora ela variasse… ela dizia-me “ah não quero eu não gosto muito de queimar os amigo, tu já fizeste muito”, porque eu às vezes sabia e dizia olha mas foste pedir ao fulano porquê? Eu tratava, e as boleias ela pedia-me a mim depois pedia ao Boleto, pedia ao Mário Lima, ela tinha ali um conjunto de amigos e geria, e jamais queria ser abusadora e então, nos últimos tempos era eu. Como tenho uma irmã, felizmente, a minha irmã está viva, que tem mais ou menos a idade dela, no fundo ela…

Blog – Era mais uma irmã, era outra irmã.

OD- Era outra irmã que, curiosamente, no ultimo ano eu passei mais tempo com a Analice do que com a minha irmã. Portanto, foi… depois os meus filhos adoravam-na, especialmente a minha filha, o meu filho não lidou tanto com ela e, sobretudo, a minha neta. E a Analice também a adorava. Quando ela morreu decidi usar a camisola mágica da SPEM com a fotografia dela. No fundo é, como se costuma dizer, juntar o útil ao agradável.

Blog – É uma t-shirt carregada de simbolismo e de sentimento?

OD – É a minha camisola, é o meu Clube.

Blog – Voltando atrás voltando há questão do trail. Quando é que aparece o trail? Vieste da estrada muitos anos a correr na estrada e depois vais á procura de uma novidade, o trail ainda é recente no nosso pais. Como é que apareceu?

OD – Ora bem, o trail, tal como é conhecido hoje, nasce através dum forúm, hoje em dia tudo passa pelo Facebook, mas antigamente eram os Blogs e os fóruns. Havia um Fórum que era o “Atletas Net”. Estamos a falar em 2003 e depois houve ali uma confusão a malta saiu do “Atletas Net” e fomos para o Fórum do “Mundo da Corrida” e no “Mundo da Corrida”, havia um participante que se chamava Sálvio Nora.  Era uma pessoa com muitas características que eu gostava e era uma pessoa que eu todos os dias lia porque ele todos os dias escrevia algo no Fórum e foi meu amigo virtual durante 4 ou 5 anos. Quando o conheci pessoalmente foi prá aí 5 meses antes dele morrer. Esse Sálvio Nora éra muito amigo do Moutinho, do José Moutinho

Blog – O Salvio é um dos pioneiros da Freita?

OD – Ora, o Sálvio era amigo do Moutinho e tinham em comum a Equipa de Orientação Os 4 Caminhos, porque o Sálvio praticava orientação. O Moutinho também mas o Moutinho tem um passado de Corrida que o Sálvio não tinha. O Sálvio praticou voleibol de alto nível durante muitos anos e depois foi para a orientação e na orientação o treino consiste muito nos trilhos na serra e o Sálvio andava a frequentar a Serra da Freita e um dia em conversa com o Moutinho disse: “eh pá, tens que conhecer aquela serra tem ali um potencial”. Um dia o Moutinho foi à Freita e ficou apaixonado até hoje. Então ele vai lá e isto nos primeiros dias do ano de 2006 já o Sálvio estava doente e começa a explorar a Serra e fica logo com a vontade de fazer ali uma Prova. O Moutinho andava muito por Espanha nas Provas de trail, pelo sul de França também onde o trail já estava muito mais desenvolvido porque nós cá tínhamos Provas de montanha...

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Blog – E ainda temos…

OD –E ainda temos mas as Provas de Montanha são diferentes de Trail as características, as distâncias, a altimetria.

Blog – O piso?

OD – O piso é semelhante! Aquilo é na montanha só que… qual é a diferença da Prova de montanha para o trail? A Prova de montanha, sobretudo, naquelas que eu ainda fiz, têm um perfil sempre a subir e não gostei. Eu adorava corta-mato e depois apareceram essas Provas de Montanha fui experimentar e não gostei porque eram Provas curtas, Provas de pouca distância de 5 km a 10, 12 km no máximo e era sempre a subir, sempre, sempre a subir e vais sempre no teu limite...

Blog –Podemos falar dos 12 km das Penhas Douradas?

OD – Hoje no trail essas Provas já vão existindo mas chamam-se o “quilómetro vertical”.

Blog – É inserida na Prova…

OD- É, é mais um segmento para quem goste de subir tem ali um bom segmento. A ideia é fazer 1000 mt de altimetria de desnível em 7 ou 8, 10 km, imagina isto é sempre a subir. O Moutinho já andava a beber ali do trail do Pais Basco e no sul de França. Acontece que o Sálvio morre em principio de Maio de 2006 e ele decide fazer um trail em homenagem, tanto que o nome da Freita inicialmente e durante uns 4 ou 5 anos e depois foi caindo e hoje já não se diz assim, infelizmente, do meu ponto de vista deveria manter-se mas pronto eles decidiram retirar ou omitir...

Blog – Tinha o nome do Sálvio…

OD – Exactamente, a Prova começou por se chamar “Memorial Sálvio Nora – Ultra Trail Serra da Freita”. O memorial já caiu e hoje é só “Ultra Trail da Serra da Freita”. Eu como muito amigo do Sálvio tinha que estar presente nessa Prova, portanto, em Julho creio que no 1º domingo de Julho de 2006 dá-se então o 1º trail enquanto trail e é aí que nasce o trail em Portugal.

Blog – Há inclusive aquele slogan da Freita “onde tudo começou”.

OD – Exactamente é dentro do que eu expliquei foi assim. Portanto, embora os amantes das Provas de Montanha digam que “isso já havia”, ok, já havia não há como negar eu fi-las mas são diferentes. Portanto, o trail nesta concepção nasceu de facto na Freita em Junho de 2006 e eu como grande amigo do Sálvio quis estar presente e é lá que conheço o Moutinho e então eu fiz a Prova curta, havia duas Provas nessa 1ª Edição era uma de 45 km, que à época era uma loucura...

Blog – Ainda não se pensava nos 100 km da Freita?

OD – E então, apareceram à volta de 50 candidatos e classificaram-se 45. Na Prova curta (15 km) nós éramos prái uns 40 e classificaram-se 32, eu fiquei em 8º...

Blog – Espectáculo!

OD – Correu-me bem gostei e depois fiz a Prova durante 10 anos seguidos até que desisti da Freita por duas razões. E quais eram as “duas coisas” que me levavam à Freita: era o Sálvio e o parque de campismo do Merujal mas acontece, como disse, que a Prova foi perdendo o nome do Sálvio e depois perdeu o parque de campismo porque aqui há dois anos a Partida e a chegada passou a ser em Arouca e aí eu disse: “eh pá, já não tem lá o Sálvio, já não tem o Parque”... O Parque era a adoração da minha mulher, nós íamos sempre dois ou três dias antes e vínhamos sempre um dia ou dois depois. Guardava ali uns dias de férias íamos para a Freita e passávamos lá no Parque de Campismo. Não há Parque, não há Sálvio acabou-se a Freita para mim...

Quanto à fotografia, devo dizer que é uma paixão antiga. Desde miúdo que adoro esta Arte. Nunca fui profissional, mas fiz muita fotografia ao nível da família e amigos. Há mais ou menos 12/14 anos, com o advento do digital, comecei a divertir-me também nas corridas, de preferência nos Trilhos, sobretudo quando, por qualquer motivo, me é impossível correr.

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