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João Paulo Félix Atleta

João Paulo Félix Atleta

27
Dez18

Orlando Duarte - O meu ilustre Convidado de honra (parte II)

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Blog – O Orlando é um Atleta multifacetado, um Atleta de estrada, praia, corta-mato ou de trail, um Atleta solidário (corre pela SPEM – Sociedade Portuguesa Esclerose Múltipla), colaborador/administrador da Página dos Fãs da Analice. Mas falta a tua parte da estatística. Investe muito no acompanhamento dos Atletas sobretudo nas Provas estrangeiras. O que é que sentes do outro lado do computador quando estás a acompanhar um Atleta? Quais as emoções?

OD – Isto é assim, eu adoro números, adoro estatísticas. Desde miúdo, eu não fiz grande escolaridade, tenho o 9º ano, mas na escola primária em contas aquilo era canja… E então os trabalhos de casa, tudo o que era aritmética era feito num ápice... A escrever já não era tanto. Hoje já gosto de escrever, mas quando era miúdo era a pior coisa, e as redacções então era… as coisas foram mudando... Ainda hoje, às vezes, não apetece... mas é um pouco como o comer e o coçar, o mal é começar...

Blog – Mas tu sabes muito de estatística… Ainda antes desses acompanhamentos quero-te dizer que a minha modalidade preferida quando era miúdo era Ciclismo. O meu pai praticou Ciclismo amador e adorava Ciclismo e quando havia a volta a Portugal íamos ver as chegadas, íamos ver as partidas, as passagens e ia ao Estádio de Alvalade. O antigo tinha uma Pista de Ciclismo e de vez em quando faziam-se lá “os critérios” como chamavam naquela altura e quando isso acontecia o meu pai levava-me. Eu era o mais novo ia com ele e então foi a minha 1ª Modalidade. Eu adorava Ciclismo pela volta a Portugal e por esses na Pista pelos “critérios”. Com a idade começou a aparecer também o Atletismo e, aos poucos, comecei também a gostar do Atletismo. O Futebol foi a 3ª modalidade que eu passeia gostar em miúdo.

Blog – Praticaste futebol? OD – Pratiquei Futebol mas nada de especial. Pratiquei Futebol mas federado não. Quando comecei a acompanhar o Atletismo, lá está, começou a entrar a “febre” dos números... houve uma altura que eu sabia todos os recordes do Atletismo masculino e feminino de todas as disciplinas eu sabia os recordes todos.

Blog – Um trabalho enorme de pesquisa. Era através da Spiridon? Qual era a fonte?

OD – Ia lendo no jornal, no Recorde, ia anotando…

Blog – Um trabalho valioso…

OD – Esta coisa do Arquivo, da estatística já vem de trás. Depois, quando falo no Recorde - porquê? O Recorde tinha um Jornalista que corria, felizmente, que ainda é vivo que é o nosso amigo Arons de Carvalho. Ele sim, tem um acervo estatístico do melhor que há e em termos de Atletismo, não é da corrida. Aparece a Revista Atletismo que era do Arons de Carvalho, não era da Xistarca. A Xistarca comprou-a depois mais tarde. Eu comprava, também, a Revista e aí comecei, também, mais tarde a ter mais dados e quando ia ver o Campeonato Nacional de Atletismo e os meetings. Havia uns meetings muito bons nos anos 80 que era no 1º de Maio organizados pela CGTP em que vinha aquela malta do leste. Eram soberbos, sobretudo, nos lançamentos, nos saltos, porque nas Corridas estávamos cá nós nos 5000, 10 000.

Blog- Nessas disciplinas não…

OD – Não, estávamos a anos luz deles. Eu gosto de Atletismo. Há malta que gosta da Corrida. É diferente, eu gosto de Atletismo e da Corrida. Eu vibro ao ver um dardo percorrer todo campo de futebol e cair lá junto à baliza. Aliás, a evolução do dardo foi de tal modo que tiveram que aumentar o peso do dardo e o centro de gravidade para ele descer mais cedo. O dardo corria riscos de passar o campo de futebol e a pista. Portanto, ver aqueles lançamentos de peso a mais de 20 mt delirava com aquilo. E nas Corridas na Pista, eu levava sempre um bloco de notas já com os tempos de passagem compilados por mim com as tais contas e as médias. Ora bem, se o recorde nacional dos 5000 está em 13 qualquer coisa… lá está, eu agora já não tenho memória como tinha…

Blog – Mas tens lá guardado?

OD – Sim, mas na altura, eu sabia quanto é que era o recorde, ora em média isto dá “x” por km, portanto, ele vai passar aos 2 quarenta e qualquer coisa ao 1º km, 5 e “picos” ao 2º. Tinha um cronómetrozinho que na altura ainda era de dar à corda, nada digital, e eu aos 1000 tomava nota e via que a Prova ia para recorde ou não. Eu vivia a Prova por dentro e por fora. Isto para dizer que já tinha esta escola nesta área. Até que em 2008 eu tomo conhecimento… aliás, eu já tinha tomado conhecimento já sabia do Mont Blanc, do Ultra trail do Mont Blanc, só que em 2008 há uns amigos sobretudo uma amiga que ainda hoje corre que é minha amiga a – Célia Azenha- e eu vou pesquisar à Página da Corrida e começo a ver que há hipótese de a acompanhar porque o Mont Blanc, tanto quanto sei, foi a 1ª Prova que dispôs de um acompanhamento ao vivo na hora na Página oficial. Eu comecei a ver aquilo vou acompanhar. Fui à lista de inscritos, e vi que não era só a Célia há aqui mais gente.

Blog – Havia mais portugueses, não muitos, nada como hoje…

OD- Não, eram uns 10 ou 12 e eu tomei nota. Na altura não tinha grande formação no excel. O excel para mim era chinês. Nessa altura, e era tudo à unha, eu tinha um bloco ia apontando, ia fazendo contas.

Blog – Funciona sempre…

OD – Até que pensei “espera aí, eu estou a fazer isto para mim” porque não partilhar com mais amigos? Então passei a partilhar, primeiro no fórum e depois no FB. No caso do utmb são 48 horas intensas e duas noites muito mal dormidas, mas duma satisfação plena! Por isso é que há pessoas que me admiram bastante… eu faço pesquisas, que me consomem horas, para estatísticas. Contudo, tenho trabalhos de horas que, por vezes, podem ser vistos por muita gente mas que se manifestam pouco, tenho trabalhos de horas e horas com 7,8, 10 “gostos”...

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Blog – É um investimento brutalíssimo…

OD- Pois, mas a questão é esta - é que eu á partida estou a fazer o trabalho para mim, porque eu gosto. Se houve 10 pessoas que também viram e gostaram, tanto melhor!

Blog – Mas há muitas mais, tenho visto no Facebook cada vez mais vais tendo mais mensagens a valorizar o teu trabalho. Acho que é bom…

OD – Mas o meu objectivo não é esse, nunca me pus em bicos de pés e jamais o faço a troco de “gostos” e de agradecimentos. Por isso, Já houve uma vez um tipo que me ofendeu... porque se eu te disser o que ele disse, vais dizer ah não é grave. Pois não, mas ofendeu-me por ser uma afirmação injusta, quando ele disse qualquer coisa do género: “ah, você faz isso por egoísmo, pelo seu ego, você anda à procura é de likes”. Respondi-lhe: se andasse à procura de likes já tinha parado há muitos anos... Na fotografia é a mesma coisa, faço porque gosto, como já disse, é outra paixão que tenho. Se andasse à espera de likes e mensagens de agradecimento, também não havia fotos para ninguém!

Blog – Nem nunca tinhas começado, no papel não havia likes.

OD – E nessa prova (utmb) ainda hoje recordo-me de vez em quando desse acompanhamento… ah e em 2008 não era no Facebook era no fórum do Mundo da Corrida. As pessoas não tinham os telemóveis avançados como há hoje, e nem toda a gente tinha computador, então as pessoas iam ao fórum e viam todos os dados que eu lá tinha e começavam a vibrar comigo. Eu vibrava, eles vibravam comigo, eu era o 1º a vibrar depois relatava e era engraçado eles “vá lá Célia tu consegues!”... E a Célia completou as 100 milhas... aquilo eram 46h tempo limite e ela fez 45h52m ou 54, ela ficou a 6 minutos ou 8 do limite. Foi um espectáculo! Eu adorei aquela experiência. E daí para cá nunca mais parei! É a Prova que eu tenho mais acervo é o Mont Blanc depois começaram a vir outras provas o Tor des Geants o Ehunmiilak, a Transgrancanaria, Andorra, etc, etc, Blog – a Maratho des sables, já tem alguns anos…

OD – Sim, sim, a Maratona das Areias, nasceu quando o Sá vai lá pela 1ª vez. Infelizmente, relativamente à Maratona das Areias tenho uma mágoa de quando a Analice fez a maratona das Areias que eu acompanhei ainda foi no fórum, o que aconteceu é que o fórum o Mundo da Corrida foi pirateado e “morreu”, mas depois depois foi ressuscitado e é nessa altura, ou seja, é nessa 2ª vida do fórum que se dá a ida da Analice à Maratona das Areias e eu acompanhei através do fórum e tinha lá tudo, só que o fórum desapareceu outra vez…

Blog – Não tinhas uma 2º cópia ou uma coisa do género

OD – Não tenho grandes dados estatísticos dessa Prova da Analice. Tenho de memória sei que ela chegou perto dos 650º, em mil chegados, mas aqueles tempos por etapas que eu tinha tudo não tenho...

Blog – Numa palavra só “a corrida para ti é…”

OD - Prazer

Blog -Quais são os teus ídolos da Corrida?

OD – Ao contrário da maioria que idolatram o Lopes, eu que sou um amante do cronómetro, para mim foi o Mamede. O Mamede teve um desempenho do mais alto nível e melhor que o Lopes. Quando digo aqui menor qualidade não estou a beliscar a qualidade do Lopes, o que é facto é que com menos qualidade teve mais frutos! O Mamede, se a memória não me atraiçoa, foi por aí 5 anos recordista do mundo. Portanto, 5 anos do mundo e 10 anos da Europa e houve um período de 6 ou 7 anos em que ele não perdeu uma prova de 5000 mt e 10 000 mt! Nos tais meetings onde se corre para a marca. Ali, nos meetings é qualidade. Nos campeonatos é as medalhas, não importa o tempo. Nem importa como é que se ganha, e o Lopes foi vítima disso porque perdeu algumas medalhas. Eu recordo-me do Finlandês nos Jogos Olimpicos em 76 (Lasss Viren), em que ele nas ultimas 2 voltas vai-se embora, mas andou mais de 9 km na “mama” e depois foi-se embora.... E havia um outro “amigo” do Lopes, que era um italiano, o Alberto Cova, que era um homem que fazia as provas de 10 000, e como sabes, são 25 voltas à pista, e ele fazia 23 de balanço e 2 para ganhar a prova. O Alberto Cova nunca teve assim grandes resultados grandes marcas extraordinárias mas tem uma data de títulos. Por isso, reforço, por amor ao cronómetro, o Mamede nesse aspecto foi o meu ídolo!

Blog – Quais as características que mais admiras num Atleta?

OD – Já abordamos isso, é a sua tenacidade, a sua garra, o seu espírito de sacrifício, e a sua humildade e aqui bate mais uma vez o ponto do Mamede-Lopes. Eu gosto mais do Mamede não tenho amizade pessoal com eles, mas conheço-os e pelo o que leio, pelo que eu oiço, e pelo que vejo, ultimamente o Mamede é convidado para palestras e para ir às escolas e está sempre disponível e o Lopes já é mais difícil... Portanto, uma característica que eu gosto nos atletas é a humildade.

OD – Há um ponto que eu costumo abordar nestas entrevistas que é a questão do português da língua portuguesa

Blog – e as terminologias das provas? Deixa-me adivinhar. O running. Qual a tua opinião sobre isso? Havia necessidade ou não havia necessidade? (risos)

OD – Não, não há necessidade. Eu admito em algumas Provas que têm expressão internacional e têm alta participação estrangeira. Eu dou-te o exemplo da prova da Madeira. Abreviadamente é o MIUT, mas o que é que quer dizer MIUT? É o Madeira Island Ultra Trail, mas aí eu dou o braço a torcer porque o MIUT por incrível que pareça 60% são estrangeiros. Ora se é para atrair estrangeiros convém pôr o nome em estrangeiro…

Blog – A Madeira turística, a ilha enquanto destino…

OD – Agora, estás a ver uma Prova de Bairro, ou da Freguesia lá do interior... eu recordo-me (essa prova depois mudou de nome ou acabou), mas ficou-me na memória que era uma prova em Leiria à noite em que o nome era mais ou menos… o Christmas by night race Leiria! Outra prova que também me “irritou”, é uma Prova há ali para Aveiro em homenagem aos bombeiros também tem assim um nome…

Blog – qualquer coisa sweet fire qualquer coisa do género

OD – Com todo o respeito que merecem essas opiniões desses organizadores, mas acho isso uma bacoquice...

Blog – É a globalização, estes estrangeirismos, estes inglesismos.

OD – E é aquela celebre frase que a gente leva ou nas camisolas ou nas medalhas que é o “finisher” que eu também detesto, eu uso o finalista, para mim é finalista. Mas lá está, numa Prova como a Maratona de Lisboa, por exemplo, que é uma Prova que traz muitos estrangeiros faz sentido.

Blog – é quase ela por ela 50% nacionais e 50% estrangeiros?

OD – É mais! Na Maratona de Lisboa mais de metade são estrangeiros. No Porto é ao contrário é mais portugueses. Mas pronto, isso também é natural que o estrangeiro opte pela Maratona da Capital do país...

Blog – Nós fomos outra vez eleitos o melhor destino turístico do mundo e isso a reboque também vem mais gente…

OD – o facto da Maratona do Porto ter mais participantes portugueses isso também funciona a favor do Porto, quer dizer que os portugueses gostam mais da maratona do Porto do que a de Lisboa. Por este ou por aquele motivo gostam mais da Maratona do Porto, mas os recordes estão divididos entre Lisboa e Porto; participantes, homens, mulheres, mais estrangeiros. O Porto tem umas coisas melhores, Lisboa tem outras. O Porto tem o recorde que é a prova com mais classificados quatro mil setecentos e tal...

Blog – E agora temos outro figurino de Maratonas. Estou a pensar de acordo com aquela ideia que falávamos à bocado sobre as provas de montanha as dos Carlos Sá, a Extreme Maratona do Gerês a do Sistelo. Nós neste momento temos algumas 6 Maratonas de Estrada. Temos a do Funchal e falta-me uma que agora não me lembro.

OD – Depois há outra coisa que as Provas podiam sempre adoptar que é o bilingue podiam sempre por o nome em português barra estrangeiro. O finisher podiam por barra finalista porque por exemplo, o atleta estrangeiro chega ao fim leva a medalha soa melhor o finisher do que o finalista, mas o contrário também é verdade!

Blog – Há o lado do inglês ser uma língua universal mas é uma coisa importante porque a perseveração da nossa língua é uma homenagem á nossa história, à nossa identidade

OD – A língua portuguesa é uma língua riquíssima. Eu uma vez li uma ideia engraçada que achei muita piada, ela dizia: “a língua portuguesa é como um faqueiro”. Sabemos que há faqueiros com várias quantidades de peças, e depois, para além da quantidade, há a qualidade. Ora, a nossa língua é um faqueiro de grande qualidade e com uma grande quantidade de instrumentos. Na qualidade do metal, há faqueiros de alumínio, há faqueiros de inox, há faqueiros de bronze, há faqueiros de prata, há faqueiros de ouro. A nossa língua é um faqueiro imenso e de ouro! Agora imagina, estás a comer com um faqueiro de ouro, mas fazendo uma analogia, agora há a mania de dizer que há várias “ferramentas”, saber que a língua inglesa é uma “ferramenta”, então, para ficar a analogia mesmo certinha, é tu estares a comer com garfo e faca de ouro e depois tens outra ferramenta (os anglicismos) que é uma chave de fendas e depois pegas na chave de fendas e espetas na batata, quando tu tens um garfo de ouro e abdicas do garfo de ouro, pegas na chave de fendas e vais espetar no alimento e trazes o alimento à boca. Ou seja, nós temos uma língua com uma data de vocábulos e vais buscar um anglicismo para pôr ali no meio duma língua riquíssima! Eu compreendo que haja situações Profissionais, às vezes ouço informáticos a falar e não percebi nada... mas isso já se está a esbater na informática e até noutras profissões.

Blog – Mas essa área tem uma terminologia muito própria, conceitos muito próprios

OD – A questão é essa, a informática não nasce em Portugal, ao vir de fora traz a sua terminologia e aí impõe-se e nós tivemos que ceder... Mas se nós não tínhamos informática e ela veio de fora, a corrida não. Em Portugal já há corrida desde sempre, porque é que a gente tem que se submeter aos anglicismos. Dou-te outro exemplo: o futebol. Nós não tínhamos futebol. O futebol nasce em Inglaterra a meio do século XIX, e vem para Portugal através duns ingleses que moravam em Carcavelos. Foram eles que trouxeram o futebol para cá no início do século XX. Ora, como não havia cá nós tivemos que nos sujeitar. Eu lembro-me, mas lá está, as coisas vão evoluindo, mas neste caso para melhor, eu quando era miúdo ainda me lembro de ouvir em termos de relatos de futebol. O guarda-redes sabes como é que se dizia nos anos 60?

Blog – Era o Keeper. Lembro-me de ouvir os mais antigos eu nasci em 70

OD – Era o keeper, o pontapé de canto era o corner...

Blog – Engraçado, hoje marcar um pontapé de canto é canto…

OD – Agora Já não se fala em corner. O penalti, ainda se continua a dizer penalti, mas hoje já se diz muito grande penalidade...

Blog – os conceitos foram mudando muito

OD- Ui, hoje já se perdeu totalmente já não se chamam fiscais de linha, chama-se arbitro-auxiliar; o fiscal de linha naquela altura era o liner; o defesa era o back, era o back central, o back direito, o back esquerdo... Resumindo e concluindo, não há necessidade!

 

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